NOTA: postagem previamente publicada no blog "humano, demasiado humano http://cosmopolitacity.blogspot.com/
Raimundo olhou mais uma vez para a sua Smith and Wesson Modelo 29, pesada com seus seis cartuchos calibre .44, o cano prateado reluzente no sol brabo da caatinga. Sua mão suava, e a coronha deslizava perigosamente por sua palma e dedos. Será que na hora da angústia sua arma lhe falharia, e sairia voando fatalmente por entre seus dedos? Raimundo não duvidava, pois sentia a mão firme na arma. Ela não cairia. A antiga, porém parruda, Winchester .22 continuava embainhada ao lado da roda de sua motocicleta, também pronta para uso. A motocicleta, construída há mais de trinta anos, era uma máquina completamente confiável: seu motor continuava impecável, as manutenções bem feitas e a pintura reluzente. Afinal... era um Harley-Davidson, o amor da vida de Raimundo.Acendendo ruidosamente o motor, Raimundo pede ajuda mais uma vez a Xangô, seu protetor. Acelera no ponto morto, tomando força do grave rugido do motor de dois cilindros, e olha em frente obstinadamente, avistando, não muito longe, a quadrilha de mortos-vivos. Há algum tempo suas cabeças e mentes haviam sido devoradas pelos chips do Orkut. Aos poucos se tornaram tão ligados à maquina, que se tornaram seus escravos. Raimundo sente pena. “pobres criaturas... foda que eu lhes avisei que essa porra ia terminar nisso...” murmura baixinho. Empunha sua magnum, engata e cavalga, rugindo em cima de sua motocicleta, para o combate.As seis balas de sua pistola duraram mais do que o esperado. Sua primeira carga, feita a quase oitenta quilômetros por hora, não necessitou de projéteis; a roda dianteira de sua pesada Harley se encarregou de destroçar uma meia dúzia dos “zumbis da mídia”, com o Raimundo os chamava. Atravessada a turba, com um rápido cavalo de pau, Raimundo vira sua moto e começa a disparar. Não erra um só tiro. Sua infância, passada na fazenda de seu avô no interior de Goiás, atirando em passarinhos e roedores com um estilingue e depois, já adolescente, com a arma de chumbinho, lhe garantiu exímia pontaria. Caíam pesados os mortos-vivos, seus corpos já duros por meses de controle cerebral. “maldito chip de merda” pensa Raimundo ao descarregar a ultima bala de sua Magnum na cabeça dum rapazola bem vestido que ele reconhece vagamente de algum lugar.
O motoqueiro mete o revolver ainda quente no cinto e sente o forte calor do cano queimando-lhe o pança. Deixa escapulir uma risada nervosa perante um pensamento inusitado (“saudade do lombinho de porco da minha vó...”) e acelera ao redor da massa humana que se move lentamente no meio da praça. Os zumbis focam Raimundo e sua moto com seus olhos oblíquos e frios, e movem-se lentamente na sua direção.Raimundo e a harley estaqueiam ao lado de um velho cajueiro. O homem saca a winchester, toma mira e faz fogo. As balas rompem cabeças, arrancam mãos, mas nem um só gemido as hipnotizadas criaturas emitem. Raimundo sente o fedor chegar-lhe às narinas, um cheiro acre, meio adocicado de putrefação avançada, que esbofeteia-lhe a cara. Sabia que a mente dessas pessoas estava perdida... mas não sabia também que suas liberdades estavam já tão podres.Descarregou o último tiro na face duma rapariga jovem e bem vestida, cabelos devidamente alisados e oxigenados, que lhe agarrava o pescoço, respingando-o com uma baba esverdeada. Com coronhadas abriu espaço à sua volta e acelerou a motoca. Por pouco um enorme indivíduo, gordo como uma porca prenha, não barrou o seu caminho- Porém, o possante motor da motocicleta acabou por forçar Raimundo por cima dos zumbis que rapidamente se aglomeravam ao seu redor.“filhos dumas puta...” bufou Raimundo, virando novamente a motocicleta de fronte para seus inimigos. Acabara o último de sua munição, gasta com economia neste ultimo mês de penúria. Raimundo já era o ultimo de sua cidade com a cabeça ainda limpa e livre... e já não agüentava mais. Todos os dias com conflitos: muitas facadas despejou contra peitos de pessoas que uma vez foram amigas e conhecidas suas. Doía-lhe na carne o assassínio mental que a máquina havia perpetrado contra aquela cidadela no interior de Tocantins.... ninguém mais pensava, ou tinha idéias, ou era criativo.“Mas que merda, que assim seja!” Raimundo nunca fora homem de panos quentes. Estava decidido a acabar logo de vez com aquela palhaçada. Acelerou brutalmente sua amada Harley-Davidson, que deu uma brusca guinada pra trás antes de precipitar-se para a massa de zumbis. O tosco motoqueiro atropelou alguns quantos zumbis antes de tomar o ato final de seu plano desesperado, formulado no dia anterior. Parou a moto, esperou que aglomerassem os zumbis, e depois tacou um fósforo aceso dentro do tanque de sua moto.Do outro lado da praça, defronte o açougue, um bando de ratos correu ligeiro para dentro dum bueiro, ao escutarem alarmados o som graúdo e estrondoso da combustão repentina de muita gasolina.
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