segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Falta de imaginação?

Por Alessandra Oliveira



Ah, dou de cara, novamente, com o velho bloqueio. Um grande muro em erosão feito de símbolos, palavras e sentimentos de memória curta e desencaixada.
Nada me deixa mais perdida nesse mundo. Não consigo escrever. Escreverei sobre não conseguir escrever, portanto.
Os dias estão calmamente iguais, o temperamento controlado (malditos remédios, malditas férias) , acho que essas coisas não colaboram para desencadear de um diálogo íntimo.
As cortinas estão frouxas e empoeiradas, os atores ainda estão de ressaca do ano novo, desequilibrados, maltrapilhos, lindos, mumificados. Acho que o teatro é que está precisando de reformas. Não conseguirei nada sem situar as palavras em um ambiente, criar um cenário para acomodá-las, um berço para criar os monstros das relatividades.
Não, não vou pegar no livro que estava lendo, vai que eu acabo escrevendo no jeito do cara. Melhor eu cá, ele lá, cada um com a sua capa.
Dedos gelados...Um pouco de Brandy, talvez para ruborizar minha cara de merda. Nada... Perdi meu traço, que perfil eu faço? Cadê meu cigarro?
Não tenho personagens, nem posso brincar grotescamente de possuir múltiplas personalidades, Pessoa era bom nisso, não de forma grotesca, é claro...
Ah, que pobreza de criatividade, como a dos filmes pornográficos!
Vou acabar contaminando quem lê, que Deus os guarde, que dele já me esqueci.
Para onde é que íamos mesmo?

Um comentário:

Me disse...

Gostei deste texto. Realmente a pior coisa que pode acontecer a alguém que escreve é o bloqueio. Principalmente aquele mais insidioso, causado pelo desespero da folha em branco. Sofro disso também. Às vezes fico o dia inteiro pensando no que vou escrever, tenho tudo preparado na cabeça, o assunto, a forma, os argumentos, os exemplos e conclusões... e daí, na hora de sentar e finalmente escrever, nada. Fico olhando para a tela do computador e a barrinha piscando, olhando para mim com escárnio. Demoro séculos para terminar uma mísera frase. Mudo de tema diversas vezes e acabo escrevendo algo sobre as rachaduras do teto, ou sobre a filosofia dos movimentos intestinais e sua relação com a Lua. Mas no fim, depois de muito sofrimento, sai algo.
São as marés. Temos que reconhecer, uns dias são da caça e outros do caçador. Um dia sobram palavras, em outros elas secam como carne ao sol.