terça-feira, 16 de junho de 2009

Crônica das memórias de Minas





Ai, que saudade daquele tempo em que a gente morria de amor e não de atropelamento... Ai, que saudade do contento de um bolo fumegante de fubá, simplório e realista, que agradava qualquer paladar! Aquilo sim, calava os subúrbios escuros da mente da criança chorosa que acabara de tomar um sopapo estúpido do velho que fedia a álcool e a suor.
Tomávamos muito café desde pequenos, aquele cheiro vinha com o brinde de um beijo de avó, que parece pedir perdão ao neto pelo pecado de seu filho triste e bruto.
Os cães cegos da rua Álvares de Azevedo cheiravam o chão à procura de restos de lixo com os ouvidos atentos aos automóveis velhos que por vezes passavam rente às suas silhuetas magras. Os vizinhos escaldavam os gatos, belas criaturas que passeavam nos telhados, que morriam nus, sem pêlo, com as retinas opacas e as bocas abertas como que em sede.
Odiava quando minha mãe metia a tesoura no meu cabelo, logo um cabelo tão delicado, castanho e fino que escorria na face, caía pelo chão, podada, a única e suave determinante da identidade feminina da criança. Talvez por isso eu gostasse tanto daquele vestidinho vermelho (e único) e da sapatilhas gastas de correr.
Nada era melhor que estojo novo de canetinhas coloridas e o cheiro do papel recém saído do Xerox para a mesa da sala de aula. Quem tinha fome, não reclamava da canjica da Dona Tereza, cozinheira da cantina, mãe de muitas bocas, e de outras suas, noturnas, que mal alimentava em sua casa. Minha mãe era professora, e eu era igual a todas as crianças.
Cachorro, galinha, marreco, vaca e cavalo. Férias nos cafundós do pobre Judas, móveis coloniais com couro gasto, à noite telas de mosquiteiros e som de radinho à pilha, eu escovava os dentes com a escova da minha prima que sabia tudo sobre os bichos e as proezas da natureza com seus olhos profundos acostumados ao silêncio bucólico.
Presente muito caro de tia era a medalhinha finíssima de Nossa Senhora folheada a ouro. Os três reis magos entrando com violas adornadas com fitas coloridas e flores na casa da avó materna religiosa, prendas ,orações e comida farta, ninguém conseguiu explicar até hoje aquele cheiro forte de rosas quando a imagem da Nossa Senhora da rosa Mística foi levada ao centro da sala da matriarca, viúva quando ainda nova, com a prole de onze filhos. Dizia ser a sua santa protetora.
Retalhos macios unidos num cozer perfeito de coloridos geométricos, colcha que dava sono pelo cheiro seu de limpeza, já tantas vezes lavada, e pelo seu cheiro familiar, próprio das coisas que se compartilham numa casa de família grande.
Todos os meus primos eram meus irmão, e eram tantos os filhos, que todos os adultos eram pais e mães de todos nós e, como apanhava-se menos dos pais dos outros do que dos nossos, aprontávamos em dobro.

(continua...)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sinner's Prayer - Eric Clapton

um bluesinho basico pra nao deixar a depre tomar conta

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O Herói Leônidas Fontes

obra prima do jornalismo televisivo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

in memoriam

Por triste ocasião da morte de uma querida amiga, venho a escrever as seguintes linhas.


Somente com a morte conseguimos encarar realmente as coisas importantes da vida. Nos torna claro que perrengues e brigas mesquinhas sobre coisas mundanas são o cúmulo da estupidez. Quando uma pessoa amada se vai para sempre, o grande vazio que rompe no âmago do ser é destruidor. Só pelo amor conseguimos nos apegar de novo a idéia da existência temporal limitada. A conexão existencial com nossas pessoas amadas é um caminho quase certo para a felicidade. Esqueça dos talheres sujos, dos motoristas imbecis, de contas para pagar, de trabalho para fazer; ame as pessoas que compõem a sua vida!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

feeling da semana

"A tristeza é um bicho que parroeta sozinho, e como róe a bichinha! parece rato em queijo parmesão"

- Adoniran Barbosa

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

GAZA

GAZA


Um dia, contra todas as leis da física
Vai que este céu desaba e quebra toda sua opala leitosa!
Farto de ser alvo de tantos olhares desesperados, de projéteis mortíferos
que, reluzentes de fogo cortam sua calma com um rastro de pólvora e fumaça,
vai que a carcaça azul de sonhos suspendida
se farta do peso onírico e dos fantasmas da morte, e como uma pele morta se descola!
Ah, a Senhora Bovary como que perdida em tamanha miragem
cozeria o estranho tecido celeste, cingindo-o à sua cintura como uma corda!
O céu adoecerá antes que o mundo morra
e o espelho azul, oxidado, inclinará sobre vossos rostos
a verdade explícita em sua superfície acidentada:
O lar de vossos deuses está acabado, assim como a matriz dos sonhos de seus filhos,
caindo sobre o solo as andorinhas mortas.

Alessandra M. P. Oliveira

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Falta de imaginação?

Por Alessandra Oliveira



Ah, dou de cara, novamente, com o velho bloqueio. Um grande muro em erosão feito de símbolos, palavras e sentimentos de memória curta e desencaixada.
Nada me deixa mais perdida nesse mundo. Não consigo escrever. Escreverei sobre não conseguir escrever, portanto.
Os dias estão calmamente iguais, o temperamento controlado (malditos remédios, malditas férias) , acho que essas coisas não colaboram para desencadear de um diálogo íntimo.
As cortinas estão frouxas e empoeiradas, os atores ainda estão de ressaca do ano novo, desequilibrados, maltrapilhos, lindos, mumificados. Acho que o teatro é que está precisando de reformas. Não conseguirei nada sem situar as palavras em um ambiente, criar um cenário para acomodá-las, um berço para criar os monstros das relatividades.
Não, não vou pegar no livro que estava lendo, vai que eu acabo escrevendo no jeito do cara. Melhor eu cá, ele lá, cada um com a sua capa.
Dedos gelados...Um pouco de Brandy, talvez para ruborizar minha cara de merda. Nada... Perdi meu traço, que perfil eu faço? Cadê meu cigarro?
Não tenho personagens, nem posso brincar grotescamente de possuir múltiplas personalidades, Pessoa era bom nisso, não de forma grotesca, é claro...
Ah, que pobreza de criatividade, como a dos filmes pornográficos!
Vou acabar contaminando quem lê, que Deus os guarde, que dele já me esqueci.
Para onde é que íamos mesmo?